A violência não surgiu agora. Ela sempre esteve aí

Tem sido até que comum a gente dizer, com alguma dose de perplexidade: “nossa, o mundo está violento”. Não sei pra vocês, mas nas minhas relações interpessoais é muito presente esse tipo de preocupação. Nas últimas semanas, rolaram episódios de violência de cunho político até numa partida de futebol. O assassinato de Marcelo Arruda, ao contrário do que disse a Polícia Civil, foi um crime de motivação política. Um horror pensar que quem pensa diferente da gente deve ser eliminado. Mas a vibe da barbárie em que estamos é essa.

Alguns dias depois, no final da partida entre Santos e Corinthians, um torcedor do Peixe invadiu o campo e tentou agredir o goleiro Cassio pelas costas. Uma cena lamentável e covarde.

A gente tem dois caminhos para analisar esses dois fatos: entender que são situações isoladas que não se conversam; entender que são situações que expressam um movimento de banalização da violência. Eu escolhi fazer a leitura sob o segundo ponto de vista. E não tem a ver com tentar relacionar tudo ou ainda fazer uma analogia entre futebol e política, como alguns dizem. A coisa é mais simples: é simplesmente entender que a violência não apareceu agora. Ela surge junto com o primeiro ser humano na terra. A violência como expressão máxima da agressividade é um aspecto humano. Ela surge portanto com a humanidade. O que estamos vivendo hoje é uma autorização (e até valorização) da violência. E é esse o problema.

É nesse sentido que vejo uma ligação direta entre os dois episódios. Uma pessoa se sente autorizada a entrar numa festa de aniversário particular e dar tiros em outra por pensamento político divergente. Uma pessoa se sente autorizada a invadir o campo depois de seu time perder o jogo e agredir pelas costas um jogador. Nos dois casos, inexiste qualquer traço de humanidade. E embora a palavra “civilização” seja um tanto quanto colonialista, nesse caso, ela serve muito para nos fazer entender que onde não há respeito pelas diferenças, não há espaço para dialogar. Onde não há diálogo possível, a violência, de fato, se impõe como único caminho.

E como reverter esse cenário? Muitos falam que reconstruir a sociedade, o país, enfim. Não sei bem se é esse o conceito mais adequado. O tal “tecido social”, que pode ser facilmente substituído por “relações sociais”, se rompeu há muito tempo. Mas não acredito em reconstuir, porque isso remete a um passado, a uma base que, sinto, também se tornou pó. Como bem disse o advogado e filósofo Silvio Almeida em entrevista para a Revista Trip, “talvez, diante de tudo o que vem acontecendo, o Brasil tal qual conhecemos não exista mais. Para mim, já não se trata mais de reconstruir o Brasil. Mas de construir um Brasil que nunca existiu”.

Bora pensar juntos em quais os tijolos necessários para essa construção!