O inferno que é ser mulher no Brasil

Uma menina de 11 anos grávida após ser estuprada e impedida de fazer um aborto, ainda que a lei permitisse isso. Uma atriz de 21 anos que teve a gravidez fruto de violência sexual exposta publicamente e foi julgada porque deu a criança para adoção. Uma procuradora espancada em seu local de trabalho por um colega homem, também procurador. O motivo? Ela abriu uma investigação contra ele, veja bem, por má conduta.

A gente vive apontando em nossas postagens como a desigualdade de gênero e o machismo acabam por estruturar relações violentas. Há quem se acostume com isso. Mas não devia.

Precisou um vídeo rodar nas redes sociais, mostrando o momento em que Demetrius Macedo agride Gabriela Samadello Monteiro de Barros, já caída no chão, para que as pessoas se chocassem e reagissem. E não precisa nem dizer que teve gente que questionou “os fatos”. “Será que ela não provocou?”, “E o lado do procurador?”. Sim, diante de tamanha barbárie, há quem diga que, talvez, Gabriela possa ter merecido apanhar daquela forma.

Precisou um áudio e uma audiência no Tribunal de Justiça de Santa Catarina vazar com a juíza perguntando para uma criança grávida se ela conseguia “suportar mais um pouquinho?” e a evidência de que foi negado a menina, no tempo certo, interromper a gravidez, para que algo fosse feito. Há quem tenha questionado se a menina era mesmo tão vítima assim. Como se uma criança de 11 anos tivesse plena formação para tomar decisões de uma vida adulta. Pensa comigo: como você era aos 11 anos?

Por fim, para coroar a quinzena de puro suco de misoginia, a atriz Klara Castanho teve a vida exposta por uma apresentadora sem um pingo de ética e depois pelo portal Metrópoles. Pra que? Cliques? Não demorou para que o tribunal da internet passasse a crucificar Klara que, não abortou, mas deu a criança para a adoção e, portanto, na cabeça dessa gente, abandonou a criança. Sem considerar que ela foi vítima de um estupro. Sem considerar a possibilidade de escolha que uma mulher deveria ter sobre seu corpo.

Que buraco a gente se meteu? Como fomos parar nessa falta de humanidade? A gente não pode se acostumar. A gente tem que se indignar. Qualquer transformação real precisa passar pela humanização das nossas relações (de todas elas, tá? dentro de casa com seus pais, com seus amigos, com colegas de trabalho, com pessoas que você cruza pela vida) e pela indignação diante de coisas desse tipo que aconteceram com a menina de 11 anos, com Klara e com Gabriela.

Se a gente se acostumar, a gente tá é muito ferrado. Esse é o recado.