Suicídio e o silêncio que permite que ele continue acontecendo

O barulhinho do Whatsapp soou perto das 10h. Era um amigo dizendo que uma amiga em comum havia se matado. O aperto no peito foi imediato. Por circunstâncias da vida, eu havia perdido o contato com ela há alguns anos. Ainda nos seguíamos nas redes sociais. E só. Mas, confesso, foi inevitável pensar que, caso eu ainda convivesse no dia a dia com ela, eu talvez pudesse ter feito algo para evitar. Poderia? Não sei. Não é sobre culpa. Longe disso. Mas é pensar sobre como estamos lidando com a saúde mental (nossa e dos outros), tão deteriorada nesses tempos bicudos em que vivemos.

E quem aponta esse processo de adoecimento emocional da população não sou é, são dados. A frase “Suicídios sobem sem parar e matam mais que acidente de moto” aparecia numa reportagem da Folha de S.Paulo. Na sequência, o texto apontava que em outros locais do mundo, os casos de pessoas que tiram a própria vida têm diminuído, mas aqui no Brasil aumenta, segundo a Organização Mundial da Saúde. “O total de óbitos no país por lesões autoprovocadas dobrou de cerca de 7.000 para 14 mil nos últimos 20 anos, segundo o Datasus, sem considerar a subnotificação. Isso equivale a mais de um óbito por hora, superando as mortes em acidentes de moto ou por HIV”, diz outro trecho.

Lembrei do tempo em que fui voluntária do CVV (Centro de Valorização à Vida) e entendi que as pessoas não se matam em busca da morte. Parece meio doida essa frase, mas é isso: quem escolhe o caminho do suicídio quer se livrar do sofrimento.

A gente mal sabe lidar com a morte, quanto mais com o suicídio. Por isso que o considero ainda um tabu. E por isso que escolhi, diante desse episódio pessoal, falar sobre isso por aqui. A gente sabe que o suicídio é multifatorial. A gente também sabe que a pandemia e os impactos sociais que ela provocou, as mudanças profundas até mesmo nas formas de se relacionar, podem ser ingredientes para entender esse crescimento que não para. Mas também colocar toda a culpa no vírus não é justo e nem verdadeiro. Até porque, os números indicam uma tendência a partir da análise de duas décadas.

O fato é que suicídio é uma questão de saúde pública e assim deve ser encarado. E o silêncio colado a ele, justamente por ainda ser um tabu, também contribui para que ele siga firme e forte fazendo vítimas. O convite de hoje é para que a gente fale sobre suicídio. Com responsabilidade, sempre. Mas que a gente converse sobre isso, sem julgamentos, com empatia, com afeto. A gente sempre costuma dizer que o silêncio é o melhor amigo da violência. E vale para o suicídio: uma violência extrema que alguém pratica contra si mesmo.
*Esse texto é uma homenagem a Fernanda
**O CVV trabalha com prevenção ao suicídio, gratuitamente, pelo telefone 188.